Revirando o meu arquivo pessoal, encontrei um artigo entitulado "O Second Life e o Circo", publicado em 2007 em meu antigo blog, no qual eu tratava do entusiasmo de muitos diantes das novidades no campo da tecnologia e das redes sociais. Transcrevo-lhes abaixo o referido artigo. Boa leitura!
O SECOND LIFE E O CIRCO
A esta altura, os prezados leitores devem estar se questionando: “Macacos me mordam! O que o Second Life tem haver com o circo?”. Caaaaaaaaaalma, amigo... Já lhes explico, e a melhor forma de fazer isto é contar-lhes uma experiência pessoal. Ao menos você irá relaxar, nesta fase em que muitos andam estressados com o famoso mundo virtual.
Quando mais novo, lá pelos meus 15 anos de idade, costumava viajar bastante com o meu pai e sua esposa para fazer camping pelo litoral brasileiro. Naquele tempo, “fazer camping” não era dançar como bobo pelo Second Life. Acampar era um saudável programa familiar, no qual as pessoas se reuniam num espaço físico aberto (normalmente paradisíaco), montavam suas barracas ou estacionavam seus traillers (aquelas casas sob rodas), e curtiam dias de vida junto à natureza.
O espírito da aventura, seguramente, eu herdei do meu velho que, a certa altura da vida, cansado daquele monta e desmonta das barracas, comprou um trailler e resolveu rodar o Brasil. Meu pai puxava o seu novo brinquedo pelas estradas com um velho Dodge Charger RT dourado, fabricado pela Crysler do Brasil. O possante carro, luxuoso para os padrões da época, fazia 6 km com um litro de gasolina.
Meu pai já era entusiasta da tecnologia muito antes de mim. Foi ele que me mostrou como, com uma simples pedra de um material chamado Galena, poderíamos montar um rádio pré-histórico. Para este feito, ele usou uma técnica que muitas pessoas na Europa, na fase da II Guerra Mundial, conheciam e utilizavam para poder escutar as notícias sobre a batalha em Ondas Curtas (OC).
Estas viagens no velho Dodge, puxando aquele enorme trailler, muitas vezes tinham um quê daquele clássico desenho animado de Disney, no qual o Pato Donald e o Pateta se envolviam em grandes confusões numa viagem parecida. A viagem que jamais esquecerei foi aquela na qual o meu pai, empolgado com um rádio PX (o voice-chat da época) que havia instalado no seu carro, resolveu convidar um amigo campista e sua família para uma viagem ao Nordeste brasileiro.
O amigo também tinha seu rádio PX, e as duas “crianças” grandes, pilotando seus possantes carros e rebocando suas casas sob rodas, iam a viagem inteira tirando sarro um com a cara do outro nas vezes em que conseguiam tomar a dianteira do “comboio” de apenas dois traillers. Chegando em Barreiras, nos tempos em que a cidade baiana não tinha uma ponte ainda para a travessia do São Francisco, o amigo do meu pai ficava do outro lado da margem do Velho Chico “zoando” com o meu pai, numa enorme fila da balsa que atravessava os veículos, dizendo-lhe que o lugar de palhaço é no final da fila.
Seis horas depois, quando finalmente conseguimos atravessar, a solução foi encontrar um posto para estacionarmos os traillers, já que não conseguimos um hotel com um quarto disponível para tormarmos um bom banho. No dia seguinte, chegou a vez do meu espirituoso pai dar o troco no seu amigo pela gozação da noite anterior...
Quem já viu um circo chegando numa cidade do interior, sabe a felicidade que este evento traz à população, normalmente carente de entretenimento. Numa pequena cidade do interior baiano, nosso “comboio” de dois traillers apenas, foi confundido pelos locais como um circo chegando. Meu pai estava à frente desta vez, e nosso carro foi logo cercado por várias crianças e adultos, que vieram pedir ingressos para o show de estréia.
Prontamente meu pai resolveu se vingar do amigo gozador, e prometeu aos moradores daquela cidade ingressos e pipoca grátis para o circo. Porém, o fez com uma ressalva: “Quem está com os ingressos é o palhaço, que vem dirigindo o carro logo atrás. Eu sou apenas o mágico, mas posso atender vocês, desde que procurem a pessoa certa. Podem dizer que fui eu que mandei pegar com ele os ingressos”. Nem preciso dizer a reação do amigo do meu pai, xingando-o pelo rádio meia hora depois...
Tudo bem que a história pode ter sido engraçadinha, mas a esta altura você ainda deve estar se perguntando: O que o Second Life tem haver com isto? Bastante, eu lhes respondo! Especialmente se compararmos a chegada desta maravilha tecnológica dos mundos virtuais em 3D, os metaversos, com a chegada de um circo numa cidade do interior.
Por muito tempo a mídia mundial se portou como típicos provincianos, deslumbrados
com a chegada de algo que lhes quebrou a rotina monótona do dia a dia nas redações. Eles correram com toda euforia para ver a novidade, a qual muitos interpretaram sob suas limitadas compreensões, e correram gritando “Lá vem o circooooooooooo!!!”. Os moradores mais sábios e experientes, sabendo tratar-se de turistas com suas casas sobre rodas, continuaram como estavam, mas puderam ao menos rir dos inexperientes.
Muitas empresas, ao investirem no Second Life, resolvem pedir ajuda a pseudo-consultores que se passam por mágicos, prometendo o que não podem cumprir, assim como fez meu o pai (sem intenção de prejudicar ninguém), na sua brincadeira com o amigo sacana. Os curiosos e entusiastas do espetáculo prometido pela nova tecnologia, assim como os moradores daquela cidade, seguramente ficaram muito desapontados com o falso alarde, dado pela imprudência de jornalistas mais afoitos.
Que o circo um dia chegará àquela pequena comunidade virtual, e fará um espetáculo
inesquecível, ninguém duvide. Só pedimos àqueles que noticiam as novidades mais prudência e responsabilidade, antes de gritarem precipitadamente pela chegada do espetáculo ao Second Life. Senão, muitos serão iludidos por mágicos, e terminarão pedindo ajuda ao palhaço.
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